Pular para o conteúdo principal

Ponto de ônibus



Jamie sempre esperava o ônibus naquele mesmo ponto, todos os dias, quando voltava do trabalho. Ele esperava junto com uma moça muito bonita, que, aliás, pegava o mesmo ônibus que ele. Ele sempre quis saber seu nome. Mas as conversas com ela não passava de divagações sobre o tempo, que horas eram, ou sobre as notícias de um jornal que hora ou outra um dos dois levava consigo.
Ele sempre a deixava subir primeiro, e ficava olhando ela fazer anotações em seu caderno, alguns bancos a frente. Em pouco tempo, já sabia seu “itinerário” naquele ônibus: sentava no mesmo banco atrás do motorista, anotava alguma coisa e ficava olhando pela janela, enquanto o vento movia seus cabelos. Descia alguns pontos antes do dele, mas ainda distante para caminhar. Uma vez se sentiu impulsionado a descer com ela. Simplesmente não conseguiu. Seus pés não se moviam. Nunca havia sentido aquilo antes. Ainda mais por alguém que sequer sabia o nome.
Contentava-se em só admirá-la. Perguntava as horas só para ver seus olhos. Trazia consigo o jornal. Falava sobre o tempo. Mas não perguntava seu nome.
Um dia, ele teve de pegar outra linha, tinha um compromisso. Naquele dia, não veria os cabelos da moça ao vento, as anotações, nada. Ele queria vê-la. Ele chegou ao ponto, e mais uma vez ela estava lá, como sempre, abraçada ao seu caderno. Quando o ônibus que desta vez pegaria chegou, ele ouviu algo que não esperava: a moça o olhara com olhos fixos. Aquele instante lhe pareceu infindável. Ela sussurrou então: “Não vai na outra linha hoje?” Ele não sabia o que dizer. Ela abaixou a cabeça, como se desejasse que ele ficasse. Mas já estava praticamente dentro no carro. Subiu como num movimento automático, mas correu à janela traseira para ver se ela ainda olhava. E mais uma vez, aquele olhar.
Quando percebeu, já haviam se passado dois pontos. Sentiu de novo os seus pés rejeitando o movimento. Mas resistiu. Correu ao motorista e desceu dois pontos depois. Correu, e quando chegou, lá estava ela. Com um sorriso lindo, como ele nunca tinha visto. E conversaram, e conheceram-se, e ele pode saber seu nome.



Ricardo Busquet

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Olhos líquidos - Um texto de Gabito Nunes

Eu não estou perguntando se você quer que eu fique. Estou dizendo que vou ficar e pronto. Certo, não precisa. Eu sei, você não precisa de nada e de ninguém, além de ficar sozinha. Vamos então encarar a coisa desta forma: a casa precisa de mim. Logo o chão estará coberto de lenços de papel, haverá sobras de chá de cidreira espalhadas por todo apartamento e o controle remoto da sua t
elevisão vai estar lambuzado de Nutella, especialmente a tecla que libera a dublagem de O Diário de Bridget Jones. Não vou deixar você fazer isso, nem transformar seu lar num cativeiro e tampouco você assistir essa lenga-lenga pela milésima vez, pela milésima vez por causa de um idiota, pela milésima em mau português.

Não esquenta, eu vim preparado, não vou precisar ir até em casa arrumar minhas coisas. Já está tudo comigo nesta mochila que eu organizei quando você me disse que estava saindo com aquele cretino. Sim, sim, eu já sabia da fama, apenas não quis cortar seu barato, você estava tão animadinha e mi…

Porque ninguém vai fazer por você o que você devia ter feito.

Curtam a página do blog no facebook (:

Eu escrevo pra você todos os dias, mas nunca acho que estão bons pra postar. Como sempre venho aqui e falo um pouco do que se passa dentro de mim. Na realidade, não ando muito satisfeita comigo, pois tem coisas que quero resolver e vejo que simplesmente ainda não posso, por que tudo exige tempo. Esperar, essa é uma palavra que realmente não gosto. Esperar faz sentir saudade, e também incapacidade de não poder resolver algo. Eu pensava que nesse ano, nessa mesma época eu estaria fazendo outros tipos de coisas, resolvendo muitas coisas na minha vida que agora vejo que não posso resolvê-las. Não estou triste, não mais como antes. Eu ainda tenho esperanças de que ainda vou conseguir resolver tudo que quero resolver, mas ainda não posso. Preciso ter paciência. É incrível como pra mim nada, nunca acontece de cara. Tudo, absolutamente tudo eu preciso esperar. Ou quando acontece o que eu quero, cinco minutos depois vejo que vi de uma maneira errada…

"Aponta pra fé e rema."

Tudo o que faço é na esperança de um dia ver que tudo deu certo. Mesmo com muitas coisas dizendo que não, ignoro todas essas vozes e tenho feito a minha parte. Estou olhando pra coisas novas, coisas que me farão crescer. Estou com um novo horizonte, estou com um novo foco, com um novo objetivo. Estou tentando me encontrar, e aos poucos vejo que estou conseguindo. Está na hora de caminhar, está na hora de seguir sem medo. Deixei meus medos, tristezas e rancores para trás. Peguei minhas esperanças, sonhos e coragem, respirei fundo, apontei para o alvo e segui. Segui e continuo seguindo e o alvo agora é ser feliz.

"Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas." Clarice L.