22.6.10

Ponto de ônibus



Jamie sempre esperava o ônibus naquele mesmo ponto, todos os dias, quando voltava do trabalho. Ele esperava junto com uma moça muito bonita, que, aliás, pegava o mesmo ônibus que ele. Ele sempre quis saber seu nome. Mas as conversas com ela não passava de divagações sobre o tempo, que horas eram, ou sobre as notícias de um jornal que hora ou outra um dos dois levava consigo.
Ele sempre a deixava subir primeiro, e ficava olhando ela fazer anotações em seu caderno, alguns bancos a frente. Em pouco tempo, já sabia seu “itinerário” naquele ônibus: sentava no mesmo banco atrás do motorista, anotava alguma coisa e ficava olhando pela janela, enquanto o vento movia seus cabelos. Descia alguns pontos antes do dele, mas ainda distante para caminhar. Uma vez se sentiu impulsionado a descer com ela. Simplesmente não conseguiu. Seus pés não se moviam. Nunca havia sentido aquilo antes. Ainda mais por alguém que sequer sabia o nome.
Contentava-se em só admirá-la. Perguntava as horas só para ver seus olhos. Trazia consigo o jornal. Falava sobre o tempo. Mas não perguntava seu nome.
Um dia, ele teve de pegar outra linha, tinha um compromisso. Naquele dia, não veria os cabelos da moça ao vento, as anotações, nada. Ele queria vê-la. Ele chegou ao ponto, e mais uma vez ela estava lá, como sempre, abraçada ao seu caderno. Quando o ônibus que desta vez pegaria chegou, ele ouviu algo que não esperava: a moça o olhara com olhos fixos. Aquele instante lhe pareceu infindável. Ela sussurrou então: “Não vai na outra linha hoje?” Ele não sabia o que dizer. Ela abaixou a cabeça, como se desejasse que ele ficasse. Mas já estava praticamente dentro no carro. Subiu como num movimento automático, mas correu à janela traseira para ver se ela ainda olhava. E mais uma vez, aquele olhar.
Quando percebeu, já haviam se passado dois pontos. Sentiu de novo os seus pés rejeitando o movimento. Mas resistiu. Correu ao motorista e desceu dois pontos depois. Correu, e quando chegou, lá estava ela. Com um sorriso lindo, como ele nunca tinha visto. E conversaram, e conheceram-se, e ele pode saber seu nome.



Ricardo Busquet

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