Pular para o conteúdo principal

Olhos líquidos - Um texto de Gabito Nunes

Eu não estou perguntando se você quer que eu fique. Estou dizendo que vou ficar e pronto. Certo, não precisa. Eu sei, você não precisa de nada e de ninguém, além de ficar sozinha. Vamos então encarar a coisa desta forma: a casa precisa de mim. Logo o chão estará coberto de lenços de papel, haverá sobras de chá de cidreira espalhadas por todo apartamento e o controle remoto da sua t
elevisão vai estar lambuzado de Nutella, especialmente a tecla que libera a dublagem de O Diário de Bridget Jones. Não vou deixar você fazer isso, nem transformar seu lar num cativeiro e tampouco você assistir essa lenga-lenga pela milésima vez, pela milésima vez por causa de um idiota, pela milésima em mau português.

Não esquenta, eu vim preparado, não vou precisar ir até em casa arrumar minhas coisas. Já está tudo comigo nesta mochila que eu organizei quando você me disse que estava saindo com aquele cretino. Sim, sim, eu já sabia da fama, apenas não quis cortar seu barato, você estava tão animadinha e minha mãe me ensinou aos gritos que a gente não deve dar vereditos prematuros em relação aos outros. Vai que eu estava errado? Acontece que eu não estava, e seu tivesse te avisado eu teria dito “eu avisei” quando você me ligou toda chorosa informando do auê. Minha tarefa é passar o fim de semana vigiando seu telefone, sua internet, selecionando quem você vai atender, com quem você vai se comunicar. Existem amigos com quem se faz besteira, e amigos que evitam besteiras, sou mais dessa segunda turma. Enquanto eu lavo sua louça, vê se esfrega um xampu nessa cabeça e vem aqui me contar isso direito. Vou fazer um café, a noite, esta em especial, é uma criança gasguita querendo mamar onde só sai pedra.

O que eu não entendo, criatura, é como você continua estacionando seu coração em local proibido. Você já não foi multada que chega? Onde mais precisa doer pra você levar jeito? Uma garota tão bonita e gente boa. Se eu não fosse seu melhor amigo, se eu não fosse pateticamente louco de amor por aquela uma, se eu fosse outra pessoa, sei lá, um cara num bar qualquer ou no McDonald’s, eu ia deixar você mexer nas minhas batatinhas. Só estou dizendo que você desperta minha atenção, justamente pelo que você mais se desdenha, como seus ombros franzinos de carregar o continente inteiro nas costas ajudando todo mundo, e seu queixinho geneticamente meio torto, que dá a entender que você está sempre invocada da vida, seu jeito tímido de andar, as mãos no bolso do jeans apertado, toda erradinha, como se tivesse sempre alguém apontando e rindo de você.

Você sabe, se eu estou aqui, é porque sou seu fã, porque você vale a pena, porque eu te gosto, e enquanto você tenta fazer esses seus lances rolarem com esses babacas, eu sinto sua falta, de conversar contigo, de ganhar aquele seu “oi” reto, com cara de sono e os olhos líquidos, na primeira aula de laboratório da manhã. Eu sei, eu sei, parece que estou tirando vantagem da sua fragilidade temporal para flertar contigo, porque eu sou um rapaz, e você uma garota e blá-blá-blá. Não é isso, baixa a guarda, está tudo bem, quando você vomitou no meu colo naquela viagem para São Paulo das Missões deu pra ver de cara que você não era pra mim. Lembra depois, nosso fiasco na enfermaria? Você toda grogue e quase tendo orgasmos por efeito do Tramal e eu do lado de fora, sôfrego como um pai de estreante. Eram só umas pedras no rim.

Isso, adoro te ver assim, fico todo orgulhoso de fazer você rir, foi pra isso que eu vim. Eu não sei o que dá na cabeça de um sujeito desses te fazer triste assim. Terminando de enxaguar esses pratos a gente vai até o sofá dar um jeito nessa dor, talvez eu tire algum som do James Taylor ou escove seus cabelos ou faça uma massagem profissional nos seus pés, vamos tirar esse joanete da sua alma. Se nada funcionar, a gente cata uma navalha e faz uns cortes sequenciais no seu braço pra liberar endorfina e trapacear a dor, como fez o dr. House naquele episódio, lembra? Não foi contigo que eu vi? Claro que foi, você deve ter embarcado no sono, como sempre. Como pode? É só te aconchegar de conchinha, contar até dez e pronto: você dormiu. E eu fico me sentindo o cara-todo-poderoso que está lá pra te proteger.

Sei que você deve achar que nunca mais conseguirá transar na vida, que ninguém nunca pedirá pra ser seu marido e aquela coisa de felicidade está cada vez mais longe, ou que todas as estrelas da sorte daqui a pouco cairão na sua testa. Mas pelo amor dos céus, é só um relacionamento falido, mais um, grande áfrica. Olha o lado bom, chora hoje, deixa seus olhos líquidos escorrerem toda essa maquiagem fúnebre, desenha com rímel preto um novo dia na minha camiseta. Amanhã, de rosto novo, a gente pinta uma carinha feliz e circense, e eu te levo de carro pra ver o mar. Ninguém vai perceber seu riso postiço, o mundo inteiro vai estar ocupado sorrindo com você. Confia em mim, às vezes quem está de fora enxerga melhor. E daqui vejo seu sorriso, sei bem do que ele é capaz de fazer.
Gabito Nunes

Comentários

  1. Nossa, esse texto é ótimo!! :D
    Gostei do teu blog Ingrid... Eu passei um bom tempo sem atualizar o meu mas como o bom filho a casa torna... voltei com a mesma proposta: Simplicidade e leveza! vou te seguir aqui!! :)

    da uma passada lá e vê o que acha:
    http://portaldeideia.blogspot.com.br/

    beijoo ;]

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Aponta pra fé e rema."

Tudo o que faço é na esperança de um dia ver que tudo deu certo. Mesmo com muitas coisas dizendo que não, ignoro todas essas vozes e tenho feito a minha parte. Estou olhando pra coisas novas, coisas que me farão crescer. Estou com um novo horizonte, estou com um novo foco, com um novo objetivo. Estou tentando me encontrar, e aos poucos vejo que estou conseguindo. Está na hora de caminhar, está na hora de seguir sem medo. Deixei meus medos, tristezas e rancores para trás. Peguei minhas esperanças, sonhos e coragem, respirei fundo, apontei para o alvo e segui. Segui e continuo seguindo e o alvo agora é ser feliz.

"Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas." Clarice L.

Porque ninguém vai fazer por você o que você devia ter feito.

Curtam a página do blog no facebook (:

Eu escrevo pra você todos os dias, mas nunca acho que estão bons pra postar. Como sempre venho aqui e falo um pouco do que se passa dentro de mim. Na realidade, não ando muito satisfeita comigo, pois tem coisas que quero resolver e vejo que simplesmente ainda não posso, por que tudo exige tempo. Esperar, essa é uma palavra que realmente não gosto. Esperar faz sentir saudade, e também incapacidade de não poder resolver algo. Eu pensava que nesse ano, nessa mesma época eu estaria fazendo outros tipos de coisas, resolvendo muitas coisas na minha vida que agora vejo que não posso resolvê-las. Não estou triste, não mais como antes. Eu ainda tenho esperanças de que ainda vou conseguir resolver tudo que quero resolver, mas ainda não posso. Preciso ter paciência. É incrível como pra mim nada, nunca acontece de cara. Tudo, absolutamente tudo eu preciso esperar. Ou quando acontece o que eu quero, cinco minutos depois vejo que vi de uma maneira errada…